Como
entender Lucas 23:43? Teria Jesus realmente prometido ao ladrão
arrependido que naquela mesma sexta-feira ele estaria no paraíso?
Nos manuscritos originais, como
no texto de Lucas 23:43, não havia pontuação como hoje. Nem tinha o
“que”, partícula que complica o entendimento do texto. Os textos eram
escritos sem pontuação e geralmente com as palavras todas ligadas, assim
(já transliterado):
“kaieipenautôamensoilegosemeronmetemoueseentôparadeisô.”
Em português: “Edisseaeleemverdadeatidigohojeestaráscomigonoparaíso.”
Separando-se as palavras: “E disse a ele em verdade a ti digo hoje estarás comigo no paraíso.”
O entendimento do texto depende
do lugar em que colocamos a pontuação, especialmente em relação ao
advérbio de tempo “hoje”. Vejamos as duas possibilidades de pontuação:
1. “E disse a ele: Em verdade te
digo, hoje estarás comigo no paraíso.” Por essa maneira de pontuar,
colocando-se a vírgula antes de “hoje”, o texto quer dizer que foi
prometido ao ladrão arrependido que naquela mesma sexta-feira ele
estaria com Jesus no paraíso. Tal tradução, porém, vai contra os
ensinamentos da própria Bíblia quanto ao momento da recompensa, que,
para os justos, será na ocasião da segunda vinda de Cristo (Mt 25:31-34;
lTs 4:16) e, para os ímpios, após o Milênio (Ap 20:5,7-9), e não quando
se morre.
2. “E disse a ele: Em verdade te
digo hoje, estarás comigo no paraíso.” Essa maneira de traduzir,
combinando o advérbio de tempo “hoje” com o verbo “digo”, está de acordo
com outras expressões bíblicas similares como, por exemplo, “Eu te
ordeno hoje” (ver Êx 34:11; Dt 4:40, etc). Além dessa concordância
gramatical, essa maneira de traduzir o texto está de acordo com o
ensinamento bíblico de que a recompensa para os justos será dada na
segunda vinda de Cristo, e para os ímpios, após o Milênio, e não por
ocasião da morte (como visto no parágrafo anterior). Por esse modo de
tradução do texto, a promessa ao ladrão arrependido teria sido de que
ele estaria no paraíso quando Jesus “viesse no Seu reino” (Lc 23:42) e
não ao morrer naquela sexta-feira da crucificação.
A opção pela primeira maneira de
traduzir o texto apresenta sério questionamento: teria Jesus mentido ao
ladrão arrependido, visto que Ele não foi ao paraíso naquela
sextafeira? No domingo pela manhã, Jesus disse a Maria Madalena: “Não Me
detenhas; porque ainda não subi para Meu Pai” (Jo 20:17). Ora, se
Jesus, no domingo cedo, não havia ainda ido ao paraíso, como teria
estado nesse lugar, na sexta-feira, com o ladrão arrependido? O Novo
Testamento é claro em dizer que Jesus é Deus, e “é impossível que Deus
minta (Hb 6:18).
A opção pelo segundo modo de se
traduzir o texto está de acordo com outras expressões bíblicas, nas
quais aparece o advérbio de tempo “hoje” com verbos similares a “digo”
como “ordeno”, “falo”; está de acordo com o ensinamento bíblico de que a
recompensa não é dada quando se morre, mas por ocasião da segunda vinda
de Cristo (para os justos) e após o Milênio (para os ímpios); além de
estar de acordo com o próprio pedido do ladrão: “Lembra-te de mim quando
vieres no Teu reino” (Lc 23:42).
Com a promessa feita ao ladrão,
Jesus estava dizendo a ele: “Estou lhe dizendo hoje, agora: Morra
tranquilo! Descanse confiando no que estou lhe dizendo hoje: Você vai
estar comigo no paraíso.”
Essa mesma promessa pertence a
todo aquele que enfrenta o “vale da sombra da morte”. Um dia Jesus virá e
ressuscitará todo aquele que fez dEle seu Salvador e morreu confiando
nEle, que é “ressurreição e a vida” (Jo 11:25). Não é essa uma doce e
confortadora promessa?
Por Ozeas C. Moura, doutor em Teologia Bíblica e professor do Salt, campus Engenheiro Coelho, SP.

Nenhum comentário:
Postar um comentário